quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Discutindo Identidade de Gênero: um caminho para o respeito as diferenças.

O coletivo “Mosaico Popular”, em suas mais variadas atividades, tem por principal objetivo intervir em busca de uma sociedade livre de toda forma de opressão, onde o povo seja protagonista de suas conquistas a partir de uma formação emancipadora. Acreditamos que o Trabalho de Base é fundamental para construção dessa sociedade. Várias são as repressões sofridas no atual sistema, discriminação por classe social, cor, sexualidade, religião. É preciso que o trabalho realizado na base trate de temas que envolvem todo esse sistema opressor.
          Para que haja um despertamento sobre as variadas formas de opressão, é fundamental que exista uma discussão aprofundada sobre as identidades de cada sujeito e suas subjetividades. Nesse texto, queremos expor uma breve reflexão sobre Identidade de Gênero e as formas de discriminação sofridas por indivíduos que não se encaixam nos padrões sociais estabelecidos. Além disso, pretendemos discutir – de forma sucinta - o papel da escola diante dessas subjetividades e a responsabilidades pela formação de cidadãos conscientes de que as diferenças precisam ser respeitadas.
Para iniciar nossa reflexão é importante definirmos o que seria essa Identidade de Gênero. Há uma confusão entre identidade sexual e de gênero, muitas vezes são pensadas de forma equivalente, mas não são. Tentaremos explicar da melhor maneira.
         A identidade sexual está relacionada ao desejo que sentimos pelo outro, seja ele do sexo oposto, ou não. Já a identidade de gênero se refere aos sexos feminino e masculino. 
Quando falamos de sexo, referimos-nos apenas a dois sexos: homem e mulher, mas a temática de gênero é bem mais complexa, pois remete à constituição do sentimento individual de identidade. Para Stoller (1978), todo indivíduo tem um núcleo de identidade de gênero, que é um conjunto de convicções pelas quais se considera socialmente o que é masculino ou feminino.
 A escolha sexual não intervém na identidade de gênero do indivíduo, ou seja, um homem que se sinta atraído por homens não, necessariamente, deixa de se sentir homem. É importante destacar que, algumas pessoas não são compreendidas, pois nascem parecendo ser do sexo oposto ao seu, enquanto sua identidade de gênero não condiz com a aparência, e muitas vezes sofrem a incompreensão e outros tipos de violências.
Cada um de nós possui suas identidades e subjetividades, que estão constantemente sendo formadas a partir das experiências, o que ocorre é que mesmo que cada ser humano tenha consciência que é um ser subjetivo, o que acontece é que tendemos sempre a não compreender o outro.
Essa não compreensão pode gerar problemas graves, no caso de alguém que não se encaixa nos padrões heteronormativos, há problemas como a não-aceitação por parte da família, dos amigos, da escola, enfim, das principais instituições que compõe a sociedade. Existem aqueles que dizem não ter nada contra, mas se omitem em lutar pela causa; aqueles que preferem manter distância, sem procurar conhecimento; aqueles que chegam a violentar fisicamente essas pessoas. E ainda existe a violência mascarada, que atua através de piadinhas, olhares repressores, julgamentos preconceituosos, exclusão.
          Qual o papel da escola nesse contexto? O que acontece, na maioria dos casos, é que as escolas passam por cima das subjetividades de cada aluno, tratando-os como um todo, e esperando a “normalidade” de cada um. Quando os educadores se deparam com casos que fujam dos padrões estabelecidos, geralmente não sabem como agir nessa situação, se omitem ou tentam “ajudar” sem conhecimento sobre a realidade – sem metodologias que viabilizem discussões de empoderamento, de empatia, sem apoio profissional na composição da escola. Há casos que a ajuda oferecida é a tentativa de mostrar para o sujeito que ele precisa modificar seu comportamento para ser aceito, procurar a cura, ao invés de dar todo o apoio necessário.
Um caminho a ser traçado poderia pautar o trabalho de base que discutisse formas de identidade e participação na construção da sociedade, que mostrasse que cada sujeito tem como principal direito o respeito. Dialogar com os alunos sobre essas diferenças, fazendo um acumulo de conhecimento, surti um resultado, não imediato, mas de multiplicação de opiniões positivas. Trabalhar temas polêmicos em sala de aula pode ser frustrante, mas enquanto não tocarmos nesses assuntos e trabalha-los, tentando articular diferentes formas de diálogos, não iremos transformar as estatísticas que matam gays, lésbicas, travestis, transexuais e transgêneros. 
A escola precisa sair da queixa e arriscar metodologias que assumam seu papel enquanto formadora de cidadãos, que rompam com as limitações do contexto educacional e que, minimamente, reformule suas funções, já que as demandas que chegam nos corredores da escola são diversas.
Percebemos que, a partir do momento que a escola passar a debater temas como identidades - de gênero, de cor, de sexualidade, social, política – um novo caminho será traçado em busca de mudança social que paute o respeito pelas diferenças, e isso influenciará em outras transformações, como a maneira de cada indivíduo elaborar suas alternativas de atuar no mundo, refletir, concordar ou não com o senso comum e contribuir com as alternativas de superação.

Flávia Ribeiro.

Um comentário:

  1. Boa noite, parabéns aos idealizadores desse blog. Quero acompanhar as propostas desse coletivo. Pelos textos já estou ficando muito contemplada. O de educação popular estava muito massa. Freire deveria ler. E esse, muito surpreendente, especialmente quando finaliza sinalizando possibilidades para a atuação nos corredores da escola. Sucesso, Mosaico Popular.
    Abç, Helena.

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